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A Folha corrida do basquete, por Melchiades Filho
 

Coluna Folha de S.Paulo - 08.08.2006

Fui!

Depois de 529 semanas
ininterruptas de artigos, o
colunista se despede do
basquete _e se enrola todo

Esta coluna é para dizer adeus.
Pensei em gritar pela última vez que o Brasil precisa sofisticar os métodos de treinamento. "Os atletas são inteligentes demais para se comover com broncas ou frases de efeito", diz o técnico da Nova Zelândia (da nova Zelândia!). Na NBA, o empirismo faz tempo não tem vez. O novo "general manager" do Houston nunca jogou ou treinou. É um cientista que estuda a relação entre estatística, administração e esporte. Aqui, os nostálgicos e preguiçosos preferem lembrar que Garrincha humilhou os computadores soviéticos _e esquecem que não surgiu outro Garrincha. Vão de Dunga, pela "atitude". Ignoram as deficiências técnicas e acham que com "união" (ou "vontade política") tudo se resolve. Afe.
Não, o texto de partida não poderia ficar assim, impessoal. Foram mais de dez anos, Melk! Cadê a emoção?
Uma idéia seria imitar o Maguila e elencar agradecimentos, nomear os 3.247 leitores que me procuraram, mandar um beijo carinhoso para Loyde Daiuto, a primeira-dama do basquete nacional, e um nada-carinhoso para Fernanda Belling, a ala mais sexy de todas. Mas, por mais que eu espremesse o texto, alguém bacana ficaria de fora.
Outra, divertida, seria pedir perdão pelos erros aqui cometidos. Não é que um dia o cara chamou o maior de todos de Michael... Jackson?!
Rápido, fui para a defensiva. Fale dos acertos, dos bons momentos, tolo! Lembre as entrevistas de Jordan e Shaq, as conversas com Chamberlain e Gomelski, a fanta-uva dividida com Olajuwon, a noite em que Stockton e Malone fizeram pick’n roll com duas groupies, o amasso na Lauren Jackson (ok, é cascata), os furos, as primeiras menções na grande imprensa a Splitter, Huertas, Iziane e LeBron (antes do NYT). Ou liste o título das 529 colunas e avise que boa parte delas já está neste pseudoblog.
Uma saída, mais justa, seria reverenciar os veteranos do bicampeonato mundial, os que plantaram a semente daquilo que tentei irrigar. Estou, porém, em falta com eles, envergonhado. Os depoimentos e documentos inéditos dormem na gaveta, mas um dia o livro sai, juro!
Cogitei, então, indicar um sucessor, citar os que, inspirados ou não pela coluna, rumam contra a maré e procuram estabelecer o contraditório, todos na internet. O Paulo Murilo, o Bruno no Diário, a turma do Draft Brasil, o Bert do PBF, a dupla do Rebote, o Gian no UOL, o Balassiano, o Marcel no Databasket. Seria, contudo, muita audácia de minha parte.
Pensei, finalmente, em me despedir com violência, em reciclar o artigo histórico do Tarso de Castro (o maluco que me meteu na profissão): "Grego é um bosta, Lula é um bosta, Barbosa é um bosta...". Ia fazer sucesso, causar um barulhão. Só que eu não estaria mais por perto para ouvi-lo. Lembrei que os surdos não gritam e realizei que esse jogo para mim acabou, que preciso me acostumar com o silêncio. Até!

Antepenúltimo...
Que Paula, Hortência, Oscar e Marcel sejam resgatados. Pela primeira vez os quatro não têm relação direta com um time. Marcel faz tempo merece a chance de treinar a seleção masculina (a feminina podiam entregar a Paulo Bassul). Paula devia ser diretora técnica da confederação; Oscar e Hortência, embaixadores (arrecadadores) do esporte.

...penúltimo...
Que o país tenha campeonatos independentes, organizados pelos clubes, mas atrelados a um circuito de base _este, sim, gerenciado pela CBB, assim como as seleções.

...e último desejos
Que a Folha não se curve ao diz-que-diz do futebol e mantenha a vigília sobre os "outros" esportes, cada vez mais populares _e ainda financiados pelo dinheiro público.

E-mail melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 23h10
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Coluna Folha de S.Paulo - 01.08.2006

O dente do juízo

Colunista emenda dentista 
com ginásio e constata que, 
apesar da crise gravíssima, o 
basquete sorri como nunca 

Tirei o siso e fui ver a seleção jogar. Cheguei com duas horas de antecedência. A garotada já fazia fila no portão. Nas mãos dela, sacos de feijão, arroz, açúcar e farinha _o preço do ingresso. Nas minhas, um saco com pedras de gelo, para conter o queixo. 
A bochecha formigava à medida que a anestesia se esgotava. O rombo na arcada gorgolava sangue de gosto ruim. A gaze que devia estancá-lo só fazia arranhar a garganta. 
Situação perfeita para sofrer com o time que não se classificou às duas últimas Olimpíadas, para chorar a decadência do basquete nacional, para engatilhar a metralhadora. 
Mas, para meu espanto, as instalações precárias em que fomos espremidos pareceram aconchegantes. Os joelhos pela primeira vez não chiaram. As pessoas empilhadas nos degraus de acesso também não. 
O sistema de som tocava hits de uma banda grisalha. Barão Vermelho, Capital Inicial, algo do gênero. O clima, porém, não tinha nada de retrô. O predomínio de adolescentes sarados e de bem com a vida na arquibancada não permitia. 
Um velhinho barrigudo trocou de camisa, sem cerimônia, bem no meio da torcida. Ninguém questionou a falta de educação ou o desodorante vencido. Os mais próximos ofereceram sorrisos piedosos. 
Atrás de mim, cinco meninos neozelandeses gritaram "yeah!" e fizeram uma "ola" quando ganharam do pai um balde de minipães-de-queijo. Esperei os palavrões. Mas a galera não esboçou nem um básico "senta!" em reprimenda. "Que bonitinhos!", ouvi de uma. "Como são loirinhos!", de outro. 
O presidente da confederação brasileira dava risadas sozinho enquanto matava o tempo caminhando na quadra vazia, alheio ao atoleiro em que meteu o esporte. 
Os atletas, por sua vez, se divertiam fora dela com a seqüência de "tira-uma-foto-comigo-no-celular-por-favor?". A paciência de Leandrinho, com justiça o mais requisitado, não tinha limite. 
Nem Lula, colecionador de maus resultados na seleção, escapava do assédio. Vi até mesmo teens invocados, que adoram meter o pau na blogosfera, se derreterem inebriados na fila que embicava no técnico. 
As garotas cercavam Marcus Vinícius e Jhonatan, jovens que não emplacaram o grupo que vai ao Mundial. Ambos tentavam resistir bravamente. Mas nenhum esporte reúne groupies tão maravilhosas. Ninguém é de ferro. Até o repórter do Sportv distribuiu autógrafo. 
O mestre de cerimônias anunciou os atletas mesclando inglês ao português ("Número ‘six’: Marcelo Huertas"). Mas, tudo bem, todo mundo compreendeu e relevou. 
Jogo iniciado, o Brasil reincidiu nas cinco falhas de hábito: marcação passiva da linha de três, falta de opções de jogo sob a cesta (Splitter no high post!), transição deficiente ataque-defesa (desbalanço numérico na quadra) e desatenção nas rotações e nos rebotes defensivos. 
Algo estava diferente, contudo. Achei ter visto uma evolução, ainda que pequena, em todos esses aspectos. A equipe ia bem nas infiltrações, na transição defesa-ataque, nos passes de back-door e no rebote ofensivo. A escolha de chutes ficara mais criteriosa, uma grata surpresa. Técnico dos mais previsíveis, Lula embaralhava a escalação a todo instante e transformava o jogo em tudo _menos em algo previsível. 
Do lado de fora, ex-jogadores aplaudiam com veemência. "Se o Nenê não vem, tudo bem", pareciam afirmar em coro Édson Bispo, Succar (era ele mesmo?), Marquinhos, Janjão e Sandro Varejão, cinco pivôs que não costumavam rejeitar convocações. 
A turma ainda em atividade engrossava o delírio. Vanderlei, Danilo, Shamell, Jefferson, Ricardo Probst (com seu bebezinho)... Assim como os treinadores, da velha e da nova gerações. Mortari, Mical, Wattfy, João Marcelo, Tácito... Todos em festa, todos em alto astral. 
Um torcedor que me conhecia sei lá de onde se levantou depois da vitória por dez pontos e me interpelou: "Você não está vendo? Estamos no caminho certo!". Surpreendi-me ao não mandá-lo para aquele lugar _como faria (e fiz) em outras ocasiões (que feio!). Surpreendi-me, de novo, ao responder com um aquiescente "Pois é." 
Enquanto eu mastigava outro analgésico com sangue, o ginásio inteiro ruminava felicidade. Agora só falta o Zagallo, cheguei a pensar. Sei lá. Talvez tenha ingerido paracetamol demais. Talvez o boticão tenha me custado mais do que o dente.

Amálgama 1 
Os quatro melhores do Mundial-2002 (Argentina, Sérvia, Alemanha e Nova Zelândia) decaíram. O Leste Europeu levará seleções renovadas na marra. Mas o Mundial não será sopa. Os hermanos ainda têm um timaço, os EUA juntaram um elenco e um técnico fabulosos, França e Espanha se reforçaram e Grécia e Turquia ganharam ainda mais entrosamento. Mas dá para encarar quase todo mundo.

Amálgama 2 
A CBB, submissa à televisão, ainda não divulgou o horário. Mas o torcedor já pode se programar. O Brasil fará os dois primeiros jogos do Mundial feminino de São Paulo às 15h15 (Brasília). Ingressos no site www.ingressofacil.com.br.

E-mail melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 19h22
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Coluna Folha de S.Paulo - 25.07.2006

Peças de ficção

O que os primeiros romance, 
peça de teatro e filmes a citar 
o basquete têm a ver com as 
seleções que o Brasil prepara

Dez anos depois de ter sido criado por James Naismith, o basquete emplacou a primeira obra literária de ficção. O esporte tinha virado símbolo do movimento de revitalização do sistema público de educação dos EUA. Pais e mestres aplaudiam o jogo que não machucava os alunos, ao contrário do futebol americano, e que podia ser praticado no inverno, ao contrário do beisebol. Burt L. Standish encantou-se e, em 1901, escreveu "Dick Merriwell's Promises". Na capa, o protagonista, de calça comprida xadrez, arremessava a bola na direção de uma cesta (com a rede fechada).
Dentro, superava a traição de colegas, a preguiça do técnico incapaz, o desdém de diretores e outros obstáculos para cavar vaga no time e levá-lo a uma grande vitória.
Para surpresa do autor, o livro fez mais sucesso entre as meninas, o que provocou uma série de lançamentos direcionados a esse público. "Grace Harlowe's Sophomore Year at Oakdale High School" (1911), "The Girls of Central High at Basketball" (1914) e "Jane Allen of the Sub Team" (1917) venderam feito água ao narrar a saga de garotas que se serviam do basquete para se tornar benquistas no colégio.
Esse mesmo "plot", o do basquete como trampolim para a popularidade teen, marcou a primeira aparição do esporte no teatro: o musical "Cupid at Vassar", encenado em 1907.
Exatas duas décadas depois, o cinema reciclou a fórmula. Em "The Fair Co-Ed" (MGM), a adolescente entrava no time da escola só para sair do anonimato e, principalmente, arranjar um namorado. A pimenta de Hollywood? O alvo do desejo era um adulto, o treinador da equipe. No papel principal, Marion Davies, a vaporosa vedete que seduziu o magnata da mídia William Hearst, o "Cidadão Kane".
No dia seguinte, entrou em cartaz "High School Hero", em que os amigos Pete e Bill duelavam, dentro e fora das quadras, pela atenção da doce Eleanor, a queridinha do colégio.
Em 1928, circulou o único filme mudo sobre basquete de que se tem registro _"Rah! Rah! Rah!", sobre um time feminino de faculdade. 
Em 1931, a Fox lançou "Girls Demand Excitement". Em meio à rixa das equipes de basquete masculina e feminina da escola, o futuro caubói John Wayne cuidava de laçar saias.
Se hoje relaciono antigas descobertas de almanaque, não é porque precisava esvaziar arquivos do laptop, mas porque de algum modo elas me remetem a nossas seleções.
A preparação das mulheres para o Mundial de São Paulo, com o time-base estanque, os repetidos amistosos contra o Canadá, os treinos obsoletos com fileira de bandeja e o desrespeito ao torcedor-consumidor (ingressos à venda sem definição de quando e a que horas o Brasil vai atuar), e a dos rapazes para o Mundial do Japão, iniciada após atropelos e patotadas na convocação e marcada por explosões emocionais juvenis, parecem saídas da ficção. Deviam mirar o futuro, mas têm ranço de filme velho, de livro datado.

Reprise 1
Nenê está liberado pelos médicos do Denver desde abril, quando o time se preparava para os playoffs.

Reprise 2
A CBB parece seguir incapaz de vestir a seleção adulta. Em 2005, distribuiu uniformes apertados. Foi impressão minha ou no domingo, no primeiro teste antes do Mundial, o pivô Estevam usou um short diferente do dos demais?

Reprise 3
O Adidas Camp é uma espécie de showroom de jovens talentos e indica o potencial técnico da mais recente fornada de um país. São Paulo realizou na semana passada a segunda edição sul-americana do evento. De novo nenhum brasileiro sobressaiu. Os vencedores dos concursos de enterradas e de três pontos? Nocedal e Barros, ambos argentinos. O craque? Zamora, da Venezuela.

E-mail: melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 08h58
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Coluna Folha de S.Paulo - 18.07.2006

Dançando com lobos

Questões que não querem
calar enquanto o basquete
rebola no free shop e roda
na frente do grande público

Parecia correta a decisão da comissão técnica de levar para a Venezuela um time B, com jovens aspirantes a uma vaga no elenco que buscará a redenção no Mundial do Japão, dentro de um mês. O Brasil não se dá mesmo bem quando atropela os vizinhos. Calça o salto alto e depois se arrebenta em torneios mais importantes. Mas, se o diagnóstico era esse, se o Sul-Americano deixou de ser tão importante, se ele valia apenas como uma peneira, por que então viajaram para Caracas os três treinadores da seleção? Não teria sido mais proveitoso manter ao menos um deles no país, trabalhando com os oito atletas pré-relacionados para o Mundial?
Lula Ferreira & Cia. alegavam que esses jogadores vieram de uma temporada extenuante, a maioria do exterior, e que por isso deviam descansar. Mas, se é assim, por que alguns têm se exercitado sozinhos? Guilherme, por exemplo, foi a público agradecer à academia e ao amigo que o ajudaram a montar um cronograma para o Japão. Está no caminho certo uma equipe cujo ala titular se gaba de preparar a própria rotina de treino?
Não é o único caso de dessintonia. Há dois anos o pivô Nenê trava uma contenda com os cartolas do basquete nacional. Seguidamente tem negado a seleção. A confederação agora diz que está tudo resolvido e que o mais famoso dos oito "intocáveis" disputará o Mundial. Mas Nenê ficou quase dez meses no estaleiro, recupera-se de cirurgia no joelho e acaba de renovar contrato com o Denver (US$ 60 milhões até 2012).
Será que o clube vai liberá-lo fácil, sem nenhum tipo de seguro? Por que o pivô ainda não falou da participação no Mundial? Por que Lula confirma a trégua se admite que nem sequer conversou com o atleta?
Talvez seja do interesse da comissão técnica esticar a novela, pois ela assim transfere ao pivô o ônus de uma nova recusa e permanece blindada às críticas. É, aliás, a tática usada com Valtinho _o armador faz tempo se desiludiu com as patotadas e, apesar disso, continua sendo convocado. Pressões e blefes fazem parte do esporte de alto rendimento. Mas não deviam ser evitados quando brincam com a opinião pública, com as expectativas da arquibancada?
De acordo com a programação da CBB, o mistério seria desfeito amanhã, com a lista dos que treinarão para o Mundial. Mas deverão ser chamados mais do que 12 nomes, justamente por conta de Nenê. Isso não aumentará a agonia dos garotos que ralaram no Sul-Americano? Não poderá ser interpretado por eles como um sinal de desprestígio?
Ou ampliar o fosso entre Nenê (a "prima donna") e os domésticos? São perguntas que não calam e decepções que engasgam neste ano tão importante. O Mundial é uma chance de ouro. Hoje o país só conhece o basquete que requebra, de vestido vermelho e maquiagem pesada, no auditório do Faustão. Hã? O quê? A Hortência rodou no programa da semana passada? Até lá dançamos?

Sapatilha 1
Quem mais merecia ser observado ficou de fora do Sul-Americano. O pivô JP Batista preferiu tentar a sorte (pelo visto, sem sorte) no Minnesota. Huertas e Murilo ganharam uma vaga no Mundial dentro da quadra; Nezinho e Estevam, fora dela. Marcus Vinícius devia ser o escolhido para fechar os 12 caso Nenê refugue de novo.

Sapatilha 2
Do ala Marquinhos, da NBA, ao "Lance!": "Não abandonei a seleção. Pedi dispensa. O Lula falou que, se eu fosse embora, iria falar muito mal de mim na mídia para eu me ferrar no Brasil. Enquanto tiver pessoas como ele, não jogo pela seleção".

Sapatilha 3
O time de Brasília foi à Justiça, arruinou o Nacional e provocou o fechamento do Ribeirão Preto. Lula, o técnico deste, agora negocia para ser o técnico daquele. Afe.

E-mail: melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 08h20
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Coluna Folha de S.Paulo - 11.07.2006

Minhas férias

De volta ao papel, coluna
revê a quadrissemana e conclui
que o basquete não parou
para ver o Zambrotta passar

O dono Ribeirão Preto fechou o time principal. Avisou, ao menos, que as categorias de base serão preservadas. Um talento burilado na cidade brilhou na Copa América juvenil. Paulão terminou como cestinha e reboteiro do torneio. Na vitória pelo bronze, o pivô meteu 26 pontos e capturou incríveis 27 rebotes. Digo bronze porque a seleção mais uma vez tombou diante da Argentina e foi alijada da decisão. As meninas, para piorar, também sucumbiram às "hermanas". Elas nem pódio pegaram. Mas, vá lá, se classificaram para o Mundial. O Paulão já foi recompensado, acabou chamado para a seleção principal. Os treinos da equipe, por falta de planejamento, começaram com dias de atraso. Não sem antes o técnico ter ensaiado um discurso para um eventual fiasco. Lula disse que a volta da seleção ao cenário olímpico foi colocada em risco pelas disputas jurídicas entre CBB e NLB. Mas ele mesmo endossou a crise, ao boicotar atletas da liga independente. Na lista dos 26 convocados, coube até quem não quer saber da seleção. Valtinho já pediu dispensa. Nenê ainda não. O pivô casou-se com a personal trainer e, no dia seguinte, renovou com o Denver por US$ 60 milhões até 2012. Outro brasileiro entrou na NBA: Marquinhos, draftado pelo New Orleans. Apesar de atuar na posição em que o Brasil anda mais desfalcado, o ala não foi chamado para a seleção. O pivô João Paulo Batista, descartado pela NBA, foi. Rafael Araújo, o Baby, ganhou uma segunda chance na liga norte-americana, negociado pelo Toronto para o Utah. Tiago Splitter e Érika novamente disseram não aos EUA. Ambos foram vice-campeões na Espanha. A exemplo da pivô, Janeth resolveu se dedicar à preparação para o Mundial de São Paulo. A CBB, contudo, esqueceu-se de avisá-la da data de início dos treinos. O armador Marcelinho resolveu tentar a sorte na Lituânia. O treinador Miguel Ângelo, no México. Leandrinho, por sua vez, a encontrou no Arizona. O ala-armador foi um dos trunfos do Phoenix, time cinderela que quase chegou lá. O esquema ultraofensivo só parou nas semifinais, ante a forte equipe do Dallas. Na decisão, entretanto, prevaleceu a maior experiência do Miami. O técnico Pat Riley reencontrou o caminho da vitória depois de 18 anos. Os veteranos vira-mundos Gary Payton, Alonzo Mourning e Antoine Walker finalmente puderam comemorar um título. Shaquille O'Neal posou de padrinho de todos. Mas foi o jovem ala-armador Dwyane Wade quem fez a diferença, com a mais espetacular performance em playoffs desde o auge de Michael Jordan. No Brasil, a festa ficou pela metade. Limeira, no masculino, e Santos triunfaram na primeira edição da NLB. Mas o Nacional da CBB, chapa-branca, não teve campeão. Parou na Justiça, em virtude de um racha na base "governista" _a ironia do destino que levou o Ribeirão Preto a piar. Fez sol e fez frio.

Sem refresco 1
A pré-temporada da NBA largou com tudo. O Chicago tirou do Detroit o pivô Ben Wallace, o melhor jogador de defesa da liga. Outro ás na marcação, Shane Battier trocou o Memphis pelo Houston. O New Orleans reforçou-se com Tyson Chandler (ex-Chicago) e Peja Stojakovic (ex-Indiana). Tim Thomas saiu do Phoenix e foi para o Los Angeles Clippers. Carmelo Anthony (Denver) e Dwyane Wade (Miami) renovaram por US$ 80 milhões. LeBron James (Cleveland) dá uma de manhoso, mas deve fazê-lo amanhã. O New York, o fiasco de 2005/2006, demitiu o treinador Larry Brown.

Sem refresco 2
As cinco colunas que, devido à Copa do Mundo, saíram somente na Folha Online estão abaixo.

E-mail: melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 09h45
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Coluna Folha de S.Paulo - 04.07.2006

Com açúcar e com afeto

Feio, fraco, branco,
contestador e diabético,
ala é o calouro de que
a NBA tanto precisava

Sobram motivos para o basquete desconfiar de Adam Morrison. Havia muito tempo a NBA não encontrava um jogador tão fora dos padrões da época.
R
osto não se discute, eu sei. Mas, nesse caso, não dá para evitar. O sujeito nunca penteia os longos cabelos, cultiva um bigode fininho de ator de pornochanchada e sempre surge em público com os olhos inchados e sonolentos. Imagine o cruzamento bizarro de um Ramone sem os óculos escuros com um daqueles chicanos "borrachos" que compõem a paisagem de antigos faroestes. É por aí.
O corpo parece quebradiço. Nada de músculos hipertrofiados pelos leve-leites aditivados do esporte de alto rendimento. Lembra o Visconde de Sabugosa da televisão, somente 90 kg distribuídos pelos 2,03 m de altura.
(Não à toa, ele registrou os piores resultados nos testes de força dentre os 58 selecionados na semana passada pelo draft, o vestibular que a liga profissional realiza anualmente para captar talentos.)
Agora visualize essa figura caminhando no campus de Gonzaga com o livrinho vermelho de Mao Tsé-tung sob o sovaco e participando de piquetes contra a invasão do Iraque, para o espanto dos jesuítas que mantêm a universidade na Costa Oeste norte-americana.
Morrison não é negro _e não foi criado nos Cárpatos, Bálcãs ou outro misterioso quintal da Europa Oriental. O que isso significa? Desde o adeus do legendário Larry Bird, no início dos anos 90, apenas dois brancos nascidos nos EUA conseguiram aparecer entre os 20 principais cestinhas da NBA (Keith van Horn, em 1998/99, e Tom Gugliotta, em 1996/97). No torneio de 2005/06, nenhum emplacou o ranking dos top 50. E, no draft do ano passado, só um (David Lee, do New York) foi escolhido no primeiro round.
Para completar, o novo reforço do Charlotte Bobcats sofre de diabetes do tipo 1. A doença, que em média reduz em 15 anos o tempo de vida, é hereditária. Já matou dois de seus avós.
Por causa dela, o ala carrega sempre uma lancheira com chocolates e sanduíches de pasta de amendoim. Usa também uma bomba de insulina o tempo todo, a não ser, obviamente, na quadra. E o que faz durante as partidas? Nos pedidos de tempo e intervalos, levanta a camiseta e, sem frescura alguma, aplica ele mesmo uma injeção na barriga.
O público aos poucos ouviu falar desse patinho feio-fraco-branco-contestador-diabético e se identificou com ele. Quando o viu em ação, rendeu-se de vez, pois o estilo de jogo dele também é peculiar.
Enquanto os craques da NBA fazem maravilhas no ar, uma dimensão desconhecida pelos simples mortais, Morrison opera no nível rasteiro, mais mundano do basquete. Para fugir dos paredões da defesa, ele não salta nem faz acrobacias. Ele simplesmente não pára de correr. O frenesi é empolgante e só não chega a ser comovente porque os deslocamentos costumam redundar em arremessos assassinos, lançados bem de trás da cabeça.
"Meu corpo vai se deteriorar mais rápido do que o dos outros", ele costuma dizer quando perguntam sobre a obstinação e o senso de urgência com que maneja a bola laranja.
O ala ingressa na NBA depois de ter se consagrado como o maior artilheiro do circuito universitário (28,1 pontos), de ter comandado a cruzada cinderela da pequena Gonzaga aos mata-matas e de ter sido eleito o craque amador da temporada.
De fato há vários motivos para a elite do esporte desconfiar desse "outsider". Mas são os mesmos motivos que a fazem precisar dele.
Em tempos salgados, em que a imagem é tudo, em que a fama sobrepõe-se à performance _e não apenas no basquete, como pudemos observar na Alemanha_, a NBA ganhou um doce.

Sais 1
O ala Marquinhos foi o único brasileiro escolhido neste draft. Muita gente vibrou. Afinal, o New Orleans não tinha outro jogador com as características dele (cestinha de perímetro). Três dias depois, contudo, o clube contratou o artilheiro Peja Stojakovic. Vai ser difícil o ex-vascaíno entrar em quadra.

Sais 2
De empresário novo, mordomo novo e noiva nova, Nenê acertou com o time... velho. O Denver vai pagar ao pivô brasileiro US$ 60 milhões até 2012 (não tem erro de digitação, não). Afe.

Sais 3
Imediatamente após a classificação das seleções juvenis para os Mundiais, a CBB manchetou no site "o sucesso" de seu trabalho de base. O texto, porém, não cita que as campanhas na Copa América foram ruins, com mais derrotas (cinco) do que vitórias (três). Nem que rapazes e meninas tombaram NOVAMENTE diante da Argentina.

Sais 4
Na semana que vem, encerrada a Copa do Mundo do Gattuso, esta coluna volta a ser editada na versão impressa da Folha (toda terça-feira). Os que curtiram a experiência online poderão prolongá-la neste pseudoblog.

E-mail: melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 00h49
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Coluna Folha de S.Paulo - 27.06.2006

Leandrinho e o pé de feijão

Ele ainda não é craque,
mas suas proezas o põem
na companhia de Ubiratã,
Oscar, Hortência e Janeth

Leandrinho cometeu dois erros a quatro minutos do final, quando a partida ainda estava parelha: no ataque, o chute de três que repicou duas vezes no aro e, teimoso, saiu; na defesa, um "turnover" absurdo, a bola entregue de graça nas mãos do adversário. A seqüência infeliz matou o Phoenix, deixou o time à mercê do Dallas, que disparou para a vitória e a classificação.
Passadas três temporadas na NBA, o brasileiro não desenvolveu o cacoete de armador. Ainda se afoba quando tenta criar um arremesso para um colega. Tanto que, aos poucos, a equipe do Arizona passou a usá-lo como ala-armador, mais aberto, à espera das oportunidades desenhadas pelo fantástico Steve Nash.
Mas nem o fato de atuar como arma ofensiva secundária, como despiste, ocultou as suas deficiências de repertório.
O jogo de meia distância inexistiu, embora um par promissor de "pull up jumpers" tenha aparecido no jogo da eliminação.
Leandrinho contentou-se ao longo de todo os playoffs em partir para a bandeja ou em arremessar de três pontos.
As infiltrações, porém, funcionaram apenas quando ele conseguiu superar o marcador na velocidade. Se precisou apelar para a troca de mãos ou outro tipo de finta, o toco ou o aro vieram implacáveis.
Os chutes de longa distância, até porque disparados logo à frente da cabeça (relativamente "baixos"), só tiveram endereço certo quando a defesa do adversário cochilou no perímetro ou nas rotações.
Na defesa, Leandrinho não passou vergonha quando pressionou a bola e/ou perseguiu o oponente por entre corta-luzes. Mas, nas coberturas, ele foi mal e, no mano a mano dentro do garrafão, muito mal.
Tanto que, se as coisas engasgavam no ataque, os texanos rapidamente passavam a explorar o "post up" e acionavam bons jogadores (Jerry Stackhouse) ou até mãos-de-pau (Adrian Griffin) para travar um duelo com o brasileiro perto da tabela.
Se a radiografia acima parece dura demais, é porque tenho certeza de que ao aplicado Leandrinho não interessaria outra análise baba-ovo, condescendente, sobre a memorável temporada 05/06.
Se hoje falo de um personagem do mês passado, é porque havia prometido de alguma forma fazer aqui a reverência que deixaram de fazer acolá.
E, se a coluna não comenta o título do Miami com destaque, é porque, com a volta do cracaço Amaré Stoudemire, o futuro ao Phoenix pertence.
Aos 23 anos, Leandrinho não é um craque completo. Está longe disso, como vimos.
Mas suas médias de 14,2 pontos e 31,6 minutos nos mata-matas da NBA, o colocam como um jogador top 50 _e que ganhou elogios de dois top 5 (Dirk Nowitzki e Kobe Bryant).
O ala-armador terminou como o cestinha de duas rodadas. Virou manchete de sites prestigiosos como o da "Sports Illustrated". Recebeu o apelido de Papa Léguas. Foi considerado o jogador mais rápido da liga.
Só quatro nomes do basquete nacional conseguiram proezas individuais maiores: Ubiratã, que abriu o mercado internacional, Oscar e Janeth, que obliteraram recordes olímpicos, e Hortência, que emplacou o Hall da Fama.
Finalmente outro brasileiro volta a tocar o céu.

Favas 1
Nada contra a ensolarada Flórida, o competente técnico Pat Riley, o neocraque Dwyane Wade ou o velhocraque Shaquille O'Neal. Mas a conquista inédita do Miami não vale a champanhe derramada:
1) Em vez de confirmar o basquete solidário e ultraofensivo do Dallas, a NBA testemunhou o sucesso de quem joga à antiga, enrola a partida e concentra o jogo em um jogador (Wade). Os playoffs mais emocionantes da história não mereciam um desfecho tão retrô.
2) Pela primeira vez desde o Chicago Bulls de 1993, um time triunfa sem ter nenhum atleta nascido fora dos EUA. É um balde d'água fria em quem prefere a liga cada vez mais "internacional". Seria tão mais divertido ver a América forçada a inventar comerciais para herr Nowitzki...
3) Cartolas que montam times em cima da hora e jogadores mercenários que topam qualquer negócio para ganhar a taça pela primeira vez têm em quem se espelhar.

Favas 2
Os treinos apenas razoáveis derrubaram bastante a cotação de Marquinhos. Mas o ala ainda tem boas chances de ser selecionado no draft desta quarta-feira. O pivô JP Batista corre (muito) por fora. Tiago Splitter, para quem não sabe, de novo tirou seu nome da lista de inscritos (o time do pivô, aliás, acaba de perder as finais do Espanhol).

Favas 3
A versão impressa da coluna só volta quando a Copa do Mundo acabar.

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Escrito por Melk às 08h19
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Coluna Folha de S.Paulo - 20.06.2006

Joga bonito

Sobre a importância de
Ronaldinho Gaúcho, a
virtude de Dwyane Wade e a
mancada de um acadêmico

Antes de a Copa do Mundo começar, tomei uma decisão. Não permitiria que este espaço fosse "contaminado". Resistiria à vontade de dar pitacos sobre o futebol. Não usaria o truque fácil das comparações. Cada macaco no seu galho. Mas não vai dar. Como diria Michael Corleone, eles continuam me arrastando!
Crítico de arte e professor de filosofia da USP, Lorenzo Mammì lançou a provocação na Ilustrada de domingo. Disse que Ronaldinho Gaúcho não representa uma volta ao futebol-arte dos de 1970 ou de 1982, que se trata de algo novo. Os dribles desconcertantes, as inversões milimétricas, as enfiadas de bola improváveis... todo o repertório do meia-atacante, na opinião do intelectual italiano, é mais espetáculo do que arte. Testemunhamos meros "maneirismos", jogadas ensaiadas para embevecer uma sociedade midiática.
Até aí, dane-se. Eu não entraria no mérito da análise, por mais equivocada que seja, até por compaixão. O grande nome do futebol da Itália? Um goleiro (Zoff). Os craques mais premiados nos últimos anos? Dois zagueiros (Baresi e Maldini). O melhor da seleção que está na Alemanha? Um becão (Nesta). Ronaldinho Gaúcho deve dar mesmo um curto-circuito em quem convive com essas referências boleiras.
No entanto, para ilustrar seu argumento, Mammì foi além _e pisou neste calo. Disse que, ao se render a "maneirismos", o futebol se aproxima do basquete. "Quando ele passa a bola e vira a cabeça para o lado contrário, isso não serve para nada. Mas, no clipe, na imagem, fica ótimo."
Tivesse um tiquinho de noção da sofisticação e da velocidade fração-de-segundo em que o jogo coletivo hoje se desenvolve, o entrevistado não cometeria essa heresia.
A tal era midiática reduziu distâncias, desfez mistérios. Todos no esporte se conhecem. Sabem de antemão os pontos fortes e fracos uns dos outros. Programam-se para explorar estes e suportar aqueles, munidos de verdadeiros tratados de anatomia (os "scouts").
Dissimular, então, torna-se obrigatório. Em palcos de alto rendimento como a liga profissional norte-americana de basquete, nem mais se treina para "melhorar". Busca-se, sim, modos de iludir o adversário, de pegá-lo no contrapé, de surpreender os "scouts".
Por isso nunca a finta e o drible foram tão importantes. Sugerir "A" e fazer "B" com a bola ganha partidas, ganha campeonatos.
Mammì certamente não acompanhou a Liga dos Campeões _e o triunfo do Barcelona sob a batuta de Ronaldinho Gaúcho. Certamente, também, não "hackeou" o mundo virtual para captar as finais da NBA _e as performances assombrosas, históricas de Dwyane Wade.
O Miami chegou à decisão rotulado como um time de duas armas, ambas no garrafão: as manobras do limpa-trilhos (ainda que decadente) Shaquille O'Neal e as infiltrações do lépido Wade.
Nos dois primeiros confrontos, o Dallas anulou as duas por meio de seguidas dobras de marcação. Saiu com o par de vitórias.
No terceiro e quarto duelos, Wade partiu para os "maneirismos". Já que o acesso ao aro estava complicado, começou a fintar as bandejas. Fingia que ia acelerar em direção à tabela, mas freava e chutava de meia distância. Meteu 42 pontos num jogo, 36 noutro. Empatou a série.
No quinto encontro, os escaldados texanos fizeram dois ajustes: a linha de frente faria o possível para que Wade não recebesse o passe e a cobertura avançaria alguns passos, a fim de impedir todo tipo de progressão _inclusive a "interrompida".
A estratégia deu certo até a metade da partida, até que o santo de Ronaldinho Gaúcho baixou de novo em quadra. Aí, não teve jeito. Os presentes ao ginásio da Flórida _e os dementes daqui pela internet_ puderam se deliciar com minutos memoráveis.
Já que não recebia a bola, Wade passou a construir todos os lances sozinho e desde o princípio. E, já que o caminho direto à cesta estava congestionado, passou a atacar pelas bordas, a contornar a marcação e a atirar de ângulos à primeira vista impossíveis.
O craque anotou 17 de seus 43 pontos no último quarto, meteu a bola que levou o jogo à prorrogação, bateu recorde histórico de lances livres e fez a cesta que garantiu o triunfo e selou a virada no mata-mata.
Para fazer isso tudo, o sujeito precisa de muita técnica. Wade, claro, tem de sobra. Seu "handle" é tão bom quanto o de Allen Iverson, com a vantagem de ser ambidestro (Iverson assumidamente possui a "pior mão esquerda da liga"). Seu equilíbrio, principalmente quando precisa se ajustar para o chute, é fantástico. E ninguém na NBA mostra a sua perícia de sinuca nos arremessos com auxílio da tabela.
Mas o sujeito precisa, principalmente, daquilo que ainda incomoda: o talento divino para fazer maravilhas mesmo sabendo que algum xarope vai sair dizendo por aí que tudo não passa de pose.

Fora de jogo 1
O treinador (sic) Lula Ferreira conseguiu a proeza de convocar 26 jogadores para as competições deste ano da seleção masculina e não relacionar ninguém que tenha participado da primeira edição da Nossa Liga, o campeonato organizado pelos clubes à revelia da confederação brasileira. A chantagem continua.

Fora de jogo 2
Marquinhos, o próximo brasileiro a emplacar na NBA, também ficou de fora da lista. O ala queimou-se com a comissão técnica em 2004 por se recusar a continuar treinando apesar de uma lesão muscular.

Fora de jogo 3
A seleção feminina deu ontem início aos treinos para o Mundial. Janeth, a estrela do time, não apareceu. Diz que a CBB se esqueceu de avisá-la. Afe.

Fora de jogo 4
Até o final da Copa, esta coluna (assim como as de "outros" esportes da Folha) só terá a versão eletrônica.

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Escrito por Melk às 08h39
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Coluna Folha de S.Paulo - 13.06.2006

Morangos mofados

Zinha faz gol, Crouch imita
robô, Raica disca celular
cor-de-rosa, e basquete
toma toco do noticiário

O basquete devia ter esperado um mês a mais pra botar pra quebrar. O noticiário da Copa do Mundo de futebol também está bombando. Não dá nem pra saída, tá tudo dominado. Quer ver?
Nunca um estrangeiro colocou um time à beira do campeonato da NBA. Os que já levantaram o taça ou eram norte-americanos de criação/coração (Olajuwon, Duncan) ou eram coadjuvantes (Ginóbili, Longley). O caso de Dirk Nowitzki é diferente, especial. Com médias de 27,6 pontos e 12,1 rebotes nos mata-matas (recordes pessoais), o alemão reinventou seu jogo dentro do garrafão e financiou praticamente sozinho a campanha bem-sucedida do Dallas, hoje a apenas duas vitórias do título. O ala-pivô apenas cometeu a tolice de revolucionar o esporte justamente na semana em que o goleiro Hislop garantiu o empate de Trinidad & Tobago contra a Suécia.
Faltou bom senso também ao nosso Tiago Splitter. Ele devia ter deixado para outro ano a classificação à final do Espanhol e as negociações para fechar um contrato milionário com a NBA. Ninguém avisou o pivô que o mundo está em outra? Ronaldinho Gaúcho ainda nem deu uma camiseta do Grêmio de presente para o filho!
Outro brasileiro, Rafael Araújo acaba de trocar de time. Vai jogar em Utah, onde brilhou no circuito universitário. Em dias normais, seria uma bela notícia. A seleção brasileira precisa demais do pivô, que estava encostado no Toronto e era humilhado continuamente pela mídia canadense. Mas o gigante que interessa agora, claro, é Peter Crouch e a sua "dancinha do robô". Ainda não pude conferir os passos do atacante inglês. Pelo auê que fazem por aí, certamente se trata de um visionário do balé, alguém da estirpe de um George Balanchine ou, no mínimo, de uma Carla Perez.
A seleção brasileira de basquete teve uma semana bastante conturbada. O técnico Lula de novo meteu os pés pelas mãos. Não satisfeito em adiar o início da preparação para o Mundial do Japão, começou a soltar desculpas esfarrapadas para um fracasso. A imprensa evidentemente cairia de pau, não estivesse ocupada com notícias mais relevantes _como a declaração de voto de Nélio, o papai de Ronaldo, no outro Lula trapalhão.
Por falar no artilheiro, fui informado que a Raica tem três celulares e que usa o aparelho cor-de-rosa só para pegar no pé do namorado. Depois de um furo de reportagem desses, ninguém de fato vai querer saber da má fase técnica de Iziane, a principal cestinha do Brasil, que neste ano abrigará o Mundial.
O Nacional chapa-branca, enredado em liminares na Justiça, terminou mesmo sem campeão, um fiasco sem precedentes no esporte olímpico do país?
A equipe de Santos conquistou o primeiro Brasileiro feminino organizado independentemente pelos clubes (NLB)?
O pivô Caio Torres foi campeão espanhol sub-20, com 19 pontos em 20 minutos na decisão?
Deixaissotudopralá.
Afinal, o Zinha marcou um gol no Irã, o Parreira pediu "o melhor" a seus comandados, e, além do mais, Togo e Coréia do Sul se pegaram hoje em Frankfurt.
Li em todos os 37 blogs dos enviados especiais à Alemanha que os morangos de Sulzbach são doces, carnudos e irresistíveis, que colher morangos virou atração turística, que teve repórter que traçou dois quilos de uma sentada, que jornalista pulou a cerca para se fartar, que esta, em resumo, é a Copa do Mundo do morango.
No basquete, chupamos o dedo, à espera da fruta que teima não amadurecer.

Dallas x Miami
Shaquille O'Neal mete apenas duas bolas e fecha o jogo com a pior pontuação em sua carreira. Dwyane Wade só consegue uma cesta de média ou longa distâncias. O Dallas disparou à frente nas finais da NBA porque fez o óbvio. Dobrou a marcação sobre os craques e pagou para ver os coadjuvantes do adversário.

Miami x Dallas
A bem da verdade, o time da Flórida também conseguiu anular a principal jogada ofensiva dos texanos. Os corta-luzes no alto do garrafão não rendem mais nada. É por isso que a série, apesar das aparências, ainda não está definida. Hoje à noite, em Miami, haverá o terceiro confronto (Globoesporte.com ou P2P TV).

Melk x Melk
Até o final da Copa a coluna semanal de basquete terá somente esta versão eletrônica.

E-mail melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 08h46
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Coluna Folha de S.Paulo - 06.06.2006

Zé Colméia

Riley diminui as "calorias"
de seu discurso, e Miami
avança pela primeira
vez às finais da NBA

O basqueteiro experiente haverá de lembrar do homem que dirigiu o Los Angeles "Showtime" Lakers no tetracampeonato dos anos 80 e tirou o New York Knicks da ruína nos 90.
Em se tratando de arrogância e afetamento, Wanderlei Luxemburgo não chegava aos pés dele. Pat Riley tratava o planeta com desdém _e este retribuía com amém.
Ele era capa de revista de esporte, pois vencia torneios; capa de revista de moda, pois vestia ternos italianos; de revista de negócios, pois inspirava os power brokers da época.
"Eu realmente acreditava que eu era o motivo por trás dos títulos que conquistei", o próprio Riley admite.
O basquete de alto rendimento, no entanto, mudou demais na virada do século. Os atletas ganharam muito dinheiro, projeção e autoconfiança. As agendas pessoais passaram a prevalecer. O discurso da auto-ajuda, na linha "nós contra o mundo" , acabou desautorizado _não por conta da animosidade bocó, mas do uso do pronome pessoal no plural.
Sem vocação zen-budista para lidar com jogadores "emancipados", Riley preferiu se recolher. Aceitou convite para trabalhar na área administrativa do Miami Heat. Parou de badalar. Nem para jantar saía mais.
E foi esse "tiozinho" de 61 anos que as câmeras flagraram ao deixar o esconderijo para reassumir o comando técnico da equipe da Flórida.
O ótimo elenco havia se insurgido silenciosamente contra o treinador anterior. Parecia precisar de alguma espécie de motivação. Funcionou.
O Miami embalou, sobreviveu à Conferência Leste e, pela primeira vez, disputará a final da NBA.
Muitos atribuem a façanha a essa versão "light" de Riley.
Avisam que ele parou de impôr dois treinos por dia, um tormento para os mimados jogadores da liga americana. Contam que ele suavizou as broncas. Dizem que mudou da água para o vinho. Lembram que o yuppie de décadas atrás até chorou ao substituir Stan van Gundy.
Pode ser, não vou descartar, vai ver o cara se iluminou... Mas talvez estejamos ante algo menos emocional. Afinal, Riley podia ser egocêntrico. Mas era também muito inteligente.
O treinador cercou-se na Flórida de atletas rodados, com 753 partidas de mata-mata no currículo (75% a mais do que o Dallas, seu próximo adversário).
Talvez ele tenha realizado que não faz sentido balançar o tamanco para Shaquille O'Neal, doido para provar que era ele a peça indispensável aos Lakers (e não Kobe Bryant). Ou para Gary Payton e Alonzo Mourning, obcecados em se aposentar em grande estilo. Ou para Antoine Walker e Jason Williams, calejados de tantas críticas. Nem mesmo para o jovem Dwyane Wade, sensato dentro e fora da quadra.
E, se não tinha realizado, certamente o fez durante os preparativos para os playoffs contra o Detroit.
Para convencer Udonis Haslem a sair do estado letárgico dentro do garrafão, Riley decidiu grudar no armário do ala-pivô uma frase do legendário jogador de beisebol dos anos 40/50 Yogi Berra.
A resposta do atleta à reprimenda? "Não entendi direito o que ele quis dizer. Para ser sincero, não sei muito sobre o Zé Colméia (Yogi Bear). Esse desenho animado não é da minha época." Cqd.
***
As finais da NBA largam nesta quinta-feira à noite. Pelo jeito, não haverá transmissão pela televisão brasileira. Aqueles que puderem vamos grudar na tela do computador e acompanhar os jogos pela Globoesporte.com ou via P2P TV (pirata). Não derrame lágrimas saudosistas. Uma nova era começou. Não tem volta.

Catatau 1
O script ficou perfeito: Limeira abrigou o primeiro jogo, fez a primeira cesta, conquistou a primeira vitória... e ergueu o primeiro título da Nossa Liga. Parabéns ao time e à cidade que mais se sacrificaram e se envolveram com o projeto de um campeonato brasileiro independente, organizado pelos próprios clubes.

Catatau 2
O Nacional chapa-branca, por sua vez, se enterra de vez no tapetão. Afe.

Catatau 3
Passado o furacão das finais da NBA, trato aqui da temporada de Leandrinho.

Catatau 4
Aos desavisados informo que esta coluna terá apenas a versão eletrônica até o final da Copa do Mundo de futebol. O papel da Folha ficou curto para o basquete.

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Escrito por Melk às 09h38
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Coluna Folha de S.Paulo - 30.05.2006

Salsa e merengue

Leitor pede uma forcinha da
mídia para o basquete, mas o
basquete de cá faz uma força
danada para não merecê-la


Por conta da ausência de uma política nacional de esporte, e da importância do esporte na sua vida, o brasileiro costuma exigir da mídia esportiva o papel de parceiro, de agente de fomento. "Não dá para dar uma notinha? O que custa dar só uma notinha!?", interpela.
Curioso. Com exceção de lobistas e spinners, não há demanda do público para que a imprensa estenda a mão para um partido político, um sindicato, um artista, uma empresa. O leitor de esportes, por sua vez, não se constrange em cobrar uma forcinha, sobretudo para as modalidades menos populares e para os "abnegados" que as praticam.
No entanto não cabe (ou não deveria caber) ao jornalista uma atuação paternalista. Seu compromisso é exclusivo com o leitor _e a notícia.
Dar uma mãozinha, acatar o pedido para "divulgar o esporte", significaria quebrar esse contrato e abdicar da independência e do espírito crítico, ferramentas primordiais para o bom exercício da profissão.
Desse modo, só o esporte poderá reerguer o esporte. Lamúrias e inação não surtirão nenhum efeito. Será preciso arregaçar as mangas, trabalhar e treinar muito. Se o produto (o campeonato) e o espetáculo (o jogo) forem bons, a torcida virá, o patrocinador se interessará, os resultados internacionais surgirão, e, na cola disso tudo, a imprensa aparecerá.
Na semana passada, porém, comecei a pôr em dúvida esse raciocínio, decantado em quase 13 anos como editor deste caderno. A meu ver, o basquete aos poucos voltava a bombar. Mas nem assim a mídia se comovia, esboçava uma resposta.
Na sexta-feira, veio o golpe de misericórdia. De uma tacada só, fui colhido por três notícias tristes.
A primeira foi a confirmação do desprezo da TV paga pela arrancada de Leandrinho nos mata-matas mais emocionantes que a NBA já viu (recordes de jogos decididos na prorrogação e por apenas um ponto). Em vez do armador, os canais resolveram destacar jogo de dominó, torneio de salsa (a dança de salão!), partida de pôquer, reprise de rodeio e até corrida de barcos vikings. Afe.
A segunda foi o bolo do Sportv, que desistiu de exibir o primeiro pega entre Franca e Ribeirão Preto pelo título do Nacional _soube depois que foi fabuloso, com uma supervirada no fim por parte dos visitantes.
A terceira ocorreu aqui mesmo, na Folha. O papel ficou curto demais para o basquete, me avisaram. Devido à avalanche da Copa do Mundo, as próximas quatro ou cinco colunas terão apenas a sua versão eletrônica.
Fiquei bravinho, mas só por dois dias, pois o domingo me enfiou a bola laranja no saco. Leandrinho teve a terceira atuação ruim seguida, a Justiça suspendeu o segundo duelo em Franca, uma liminar destituiu a diretoria da confederação brasileira, a Nossa Liga cometeu o acinte de reescrever o regulamento em plena semana de decisão.
A gente se vê até julho na Folha Online e neste blog, então.

Remoto 1

A ESPN achou um bom narrador de basquete: Everaldo Marques.

Remoto 2
Roby Porto e Rodrigo Alves, do Globoesporte.com, também foram bem no semestre de estréia _sóbrios demais no início, deslancharam após estabelecer um diálogo com os internautas. O pacote online, aliás, teve um preço justo, pouco mais de um real por jogo. Só faltou ao portal zelar por uma melhor qualidade técnica das transmissões. Mas é o custo do pioneirismo.

Remoto 3
Você não conferiu o belo trabalho de César Augusto no "Esporte Espetacular", arrancando confidências de Leandrinho sobre os primeiros dias de NBA? Não deixe de clicar o gmc.globo.com/GMC/0,,2465-p-M461963,00.html.

@ - melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 10h04
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Coluna Folha de S.Paulo - 23.05.2006

Os três enterros

Basquete não se comove, 
faz valer a lei do mais forte 
e arruína as chances de a 
coluna celebrar azarões

Estava prontinho para falar da campanha lancinante de Rio Claro no Nacional. Ajuntados há apenas nove meses, jogadores jovens e desgarrados atropelaram rivais mais badalados. A classificação para a final parecia certa.
Eu iria destacar a defesa do time, não só a menos vazada (76 ppj) mas também a que impôs aos adversários o menor número de assistências (15,6), o pior percentual de aproveitamento nos chutes (41,9%) e a maior incidência de erros (15,8).
Comentaria a carreira de Guerrinha, treinador com o segundo melhor índice de vitórias no circuito masculino _só perde para Hélio Rubens. Diria que, a cada dia, ele se cacifa para substituir Lula, a quem, aliás, ajuda na seleção (hummm...). 
Estava prontinho, também, para de novo incensar o jogo de LeBron James. Já havia até enfileirado argumentos. Lembraria que somente Magic Johnson em 1980 fez uma estréia nos playoffs mais sensacional do que o ala, que registrou um triplo-duplo já na primeira partida. 
Mostraria que nenhum time soube enfrentar situações adversas como o Cleveland de LeBron _18 vitórias nos 20 confrontos mais recentes decididos por menos de cinco pontos (nenhuma derrota nos seis duelos de um ponto!). Destacaria a deliciosa declaração do atleta após três vitórias sobre o Detroit, o favorito da crônica ao título da NBA: "Eles não são o lobo mau, e nós não somos os três porquinhos".
Eu mesmo sabia que o New Jersey tinha poucas chances _o Miami não haveria de cair ante um time sem jogo de garrafão e reservas decentes. Ainda assim, cruzei os dedos. Afinal, o texto sobre Vince Carter estava prontinho havia meses. 
Eu falaria do ala que mete cestas como poucos e dá enterradas como ninguém. Escreveria que ele deixou muita gente ressabiada desde que assumiu ter feito corpo mole no Toronto, mas que a NBA não tem esse tipo de prurido. Que Carter não só foi bem recebido como virou referência do New Jersey, que já contava com duas estrelas (Jason Kidd e Richard Jefferson). Que, em fevereiro, durante o All-Star Game, espantei-me com o cartaz dele. Que Rasheed Wallace, instado a eleger um quinteto ideal, de bate-pronto citou Carter. Que Pau Gasol (Memphis) ouviu o papo e endossou: "Ele não se acovarda. Fez uma das cestas mais difíceis da história [evitando a derrota dos EUA para a Lituânia na Olimpíada de Sydney, em 2000]". 
Mas o basquete não se comoveu. 
Faltou só uma bola para Carter esticar a série contra o Miami. Faltaram só dois pontinhos, também, para Rio Claro avançar à decisão. Faltaram a LeBron colegas mais capacitados para evitar a eliminação. O final da semana enterrou as três colunas.
Fiquei com a paisagem, árida e montanhosa.

Lápide 1

O hexagonal foi jóia. Mas o boicote da TV aos times da Nossa Liga e as arbitragens conturbadas esvaziaram o discurso de que dele sairia o legítimo campeão brasileiro.

Lápide 2
No embalo da classificação para a final, Franca começa a articular a união dos clubes rebeldes com os que permaneceram fiéis à CBB. O presidente da confederação, Gerasime Bozikis, que movera montanhas para estragar o sonho da Nossa Liga, agora não esboça retaliação. Está mais isolado que nunca.

Lápide 3

A Venezuela abrigará o qualificatório para os Jogos de Pequim. Ausente há duas edições da Olimpíada, o Brasil não se interessou pela vantagem e não se candidatou. Afe.

@ - melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 12h17
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Coluna Folha de S.Paulo - 16.05.2006

Quanta aporrinhação

"Sou um mala. Tenho de admitir que não faço outra coisa senão reclamar. Depois de um breve exercício de auto-análise, não há outra conclusão.
"Não gostei da grade curricular do colegial, por não acreditar que me ajudaria no mundo real, e resolvi assistir a algumas aulas na faculdade. Quando entrei na universidade, não gostei também. Decidi me encaixar como ouvinte no programa da pós-graduação.
"Meu primeiro emprego foi numa loja de software. Mas, quando o dono me pediu para varrer o chão em vez de visitar clientes, protestei. Fui demitido, o que me levou a abrir o primeiro negócio.
"A MicroSolutions no começo não tinha sede, nem telefone. Eu batia à porta das empresas e oferecia suporte técnico. Era difícil a coisa decolar, pois perdia muito tempo de computador em computador. Chiei. Já que ninguém descobria um modo de unir os terminais em um mesmo servidor, eu cuidaria disso. A idéia se desenvolveu, e meu negócio vingou.
"Eu tinha um amigo de Indiana que, como eu, morava em Dallas. Nós vivíamos reclamando por não poder acompanhar os jogos dos nossos times. Então, fundamos a AudioNet, que depois viraria a Broadcast.com, para transmitir as partidas pela internet.
"Fiquei frustrado quando comprei um aparelho de TV digital. Lamentei que ninguém produzisse conteúdo digital. Foi o que me levou a criar o estúdio HDNet.
"De vez em quando me levavam para ver os Mavericks. Era tudo tão malfeito que eu me irritava. O time era ruim, não havia vibração no ginásio, o programa não tinha graça. Comprei o clube.
"Como cartola, eu já critiquei muito a NBA. Muitas coisas já mudaram _como o basquete é vendido e promovido, como o negócio é gerido. É a vantagem de se queixar a uma organização disposta a melhorar o tempo todo. Ela pode até se enfurecer, não gostar das provocações, mas ações falam mais alto do que palavras.
"Por isso eu não entendo por que tantas pessoas acham que manifestar descontentamento, fazer demandas, bater o pé, ser um mala enfim, é algo negativo.
"Reclamar é o passo inicial para mudar as coisas. Você percebe que algo está realmente errado e que precisa fazer algo a respeito. Pessoas que não reclamam tornam-se saco de pancadas, são incapazes de influenciar o mundo.
"Os jornalistas costumam chamar os leitores de malas _e com a conotação negativa. Incrivelmente, os jornalistas, justo eles, se orgulham de não ser malas."
***
O texto acima é de Mark Cuban, 47, um dos 300 homens mais ricos do mundo, com a fortuna avaliada em quase US$ 2 bilhões. Na semana passada, o "mala" sugeriu a Avery Johnson que seguisse o conselho dos estatísticos que fazem para o Dallas um estudo tão maluco quanto pioneiro (velocidade e volume de jogo). O treinador aceitou experimentar dois armadores simultâneos e meteu Devin Harris como titular. Resultado: a equipe ganhou três seguidas. Desse jeito, o poderoso San Antonio, o atual campeão, vai ter de reclamar com o papa.

Internet 1
Cuban tem tanta grana e tanta autoconfiança que não poupa ninguém no www.blogmaverick.com. Dispara contra concorrentes, mídia, governo, NBA e até contra suas próprias excentricidades.

Internet 2
O Globo.com diz ter enfim solucionado o problema técnico (IP "alien") que afligia muitos assinantes do pacote da NBA. O portal traz, aliás, uma boa novidade: um blog da dupla sóbria e competente que cuida das transmissões (www.nba.globolog.com.br).

Internet 3
A guerrilha basqueteira nacional na internet está de cara nova. Dê um pulo no www.rebote.org e no www.basketbrasil.com.br.

E-mail: melk@uol.com.br



Escrito por Melk às 09h19
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Coluna Folha de S.Paulo - 09.05.2006

Raízes do Brazil

Se é para escrever sobre o basquete brasileiro, dar um tempo nas análises sobre a emocionante largada dos mata-matas da NBA, que seja com propósito. Não tenho vocação para o realejo, detesto martelar a mesma tecla. Mas a tarde caiu, a noite cresceu, a madrugada avançou, e não surgiu a idéia nova, o tema instigante, a sacada que merecesse os 3.500 toques e pudesse me deixar em paz por mais uma semana.
Embananei-me, obviamente, com o fato de que o país organiza dois campeonatos nacionais simultaneamente (CBB e NLB) _e de que times de um atuam no outro. "Keltek vence na estréia nos playoffs", vibra o boletim de imprensa do dia 4. "Keltek perde na estréia nos playoffs", lamenta o boletim de imprensa do dia 6. Não, os assessores de imprensa não erraram; os cartolas sim.
A bagunça desautorizou todo estudo estatístico, já que alguns times fizeram muitos jogos a mais do que outros. Quem é o legítimo cestinha do torneio da CBB? Márcio (Ulbra), com 27,8 pontos em 5 jogos, ou Shamell (Paulistano), com 24,8 pontos em 16 partidas?
As manchetes, todas déjà vu, tampouco ajudaram: "Ribeirão Preto cai no Sul-Americano"; "Ribeirão Preto sobe no Nacional"; "Uberlândia troca de técnico"; "Uberlândia perde e estuda trocar de técnico"; "Ourinhos mantém-se invicto no feminino"...
Vi, então, que não adianta forçar a barra. No fundo, campeonato brasileiro é o campeonato que o jogador mais essencial da seleção, o ala-pivô Nenê, disputa em Denver contra o joelho, o bolso e a consciência, todos em farrapos.
Ou o que nossa mais talentosa atleta, a ala Iziane, vai jogar em Seattle a partir do dia 20, a volta dela após meses de inatividade.
Ou aquele que vem descabelando o ala-pivô Anderson Varejão, mascote e melhor reboteiro do Cleveland, um dos afortunados que testemunham de perto a entronização de LeBron James.
Ou, também, o que aguarda em junho o extraordinário Tiago Splitter e os bons J.P. Batista e Marquinhos, candidatos patrícios a um contrato na NBA.
Perseguem o título do Brasil, ainda que na Espanha, nossa melhor pivô, Érika, e nossa melhor (única?) armadora, Helen _elas defendem o Barcelona na final contra o Salamanca, de Kátia.
Busca semelhante reúne o jovem armador Marcelinho Huertas (Badalona), quarto lugar na eleição de revelação de 2006, e três de nossas promessas do garrafão: Marcus Vinicius, Vítor e Rafael (este, titular do Nike Hoop Summit, evento que anualmente reúne a nata sub-20 do mundo).
O basquete brasileiro respira na Itália _a veterana Cíntia Tuiú, ala-pivô titular da seleção, tenta o bicampeonato pelo Schio.
Respira na Ucrânia _Guilherme, nosso ala mais técnico, vai às semifinais em seu debute no Kiev.
E respirou sábado em Phoenix, onde, segundo o treinador, "por dez minutos Leandro Barbosa foi o jogador mais veloz da Terra" _restabelecido da amarelada nas rodadas iniciais, o armador titular da seleção acertou 10 de 12 chutes e foi o cestinha (26 pontos) no duelo final contra os Lakers.
Ah, tanto mar, tanto mar.

Pátria minha 1
Enquanto Leandrinho batia recordes no jogo de vida ou morte, a ESPN exibia um torneio internacional de dança de salão (salsa?!).

Pátria minha 2
O Globo.com também economiza demais nas transmissões. Para piorar, o portal barrou meu laptop (o mesmo pelo qual acompanhei com sucesso os jogos da fase de classificação). E olha que assinei o pacote, embora tivesse recebido uma senha de cortesia. A resposta do serviço de atendimento ao cliente? Arranje outro laptop. Afe.

Pátria minha 3
Tem computador? Assina serviço de banda larga? O jeito é mergulhar no mundo da p2pTV e aprender a conjugar o verbo bufferizar.

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Escrito por Melk às 09h19
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Coluna Folha de S.Paulo - 02.05.2006

Dois atos, uma só atitude

Primeiro ato: cercado de jogadores de pouco nome e pouco talento, o craque tenta reconduzir aos mata-matas o seu clube, de tantas glórias e tradições.
Já na largada do campeonato, Kobe Bryant atua como se precisasse resolver cada uma das posses de bola das partidas. Pela primeira vez, arremessa mais (27,2) do que qualquer outro na NBA.
Em janeiro e fevereiro, engata uma marcha desconhecida. Registra média superior a 40 pontos nos dois meses, algo que a liga norte-americana não testemunhava havia quatro décadas.
O momento máximo acontece em 22 de janeiro, quando o ala converte 28 de 46 arremessos e assegura a vitória, de virada, sobre o Toronto. Os 81 pontos só perdem para os míticos 100 de Wilt Chamberlain em 1962.
Kobe fecha a primeira fase como artilheiro do torneio, com a média de 35,4 pontos _a oitava maior da história e a mais alta em 19 anos (desde os 37,1 da versão pré-títulos de Michael Jordan).
Astro & companhia festejam a classificação aos playoffs. Ficam em sétimo na Conferência Oeste, com 45 vitórias em 82 rodadas. Bem melhor do que em 2004/05 (11º, com 11 triunfos a menos).
Segundo ato: o craque tenta esticar a temporada do "azarão" contra o Phoenix, ironicamente um adversário de múltiplas armas ofensivas _sete integrantes ostentam recordes pessoais no ano, a começar pelo maestro Steve Nash, líder em assistências e favoritíssimo ao seu segundo troféu de melhor jogador da NBA.
O basqueteiro faz as contas. Se os caras já tocaram o basquete de uma nota só na fase regular, que dirá nos playoffs, em que os jogos ficam bem mais nervosos? Vai sobrar Kobe para tudo quanto é lado.
A série começa. Conforme o esperado, o craque atrai dupla marcação toda vez que é acionado. Conforme o inesperado, não parte para a cesta. Orientado pelo técnico Phil Jackson (outro gênio), o fominha reduz seus chutes em 30%. Desfaz-se da bola com passes rápidos e agudos, acionando colegas mais próximos da tabela.
A defesa do Phoenix se espanta com a generosidade. Tropeça nas coberturas e permite que renegados como Kwame Brown e tapa-buracos como Luke Walton praticamente dobrem de produção.
A derrota por cinco pontos no primeiro confronto soa como vitória. Os pangarés que Kobe carregou por meses passam a acreditar que pertencem de fato à elite.
O Kobe Bryants volta a ser o Los Angeles Lakers e fatura os três duelos seguintes _sempre com o astro na ignição das jogadas e outros titulares com dois dígitos no placar.
Domingo, de quebra, como se quisesse mostrar a todos que não perdeu a mão, Kobe mete a cesta que leva os californianos à prorrogação e a que sela a vitória, ambas com o cronômetro zerando.
Pobre de quem fez beicinho para o primeiro ato, falou em fraude nos 81 pontos, apontou excessos de exibicionismo e repetiu o chavão politicamente correto do basquete solidário para justificar os seus preconceitos (não deve gostar de Oscar e Hortência também). O segundo ato ainda não acabou, mas a peça do melhor jogador do mundo já está pregada.

Pipoca 1
O ala do Phoenix participou dos dois vexames da seleção dos EUA (o sétimo lugar no Mundial-02 e o bronze na Olimpíada-04). Em 2005, foi humilhado pelo San Antonio. Agora, ante os Lakers, todos os seus números despencam, com a exceção do de faltas cometidas. Shawn Marion é um dos melhores da NBA... quando nada está em jogo.

Pipoca 2
O espevitado Leandrinho (Phoenix) também não se encontrou nos mata-matas. Sua pontuação caiu quase pela metade (13,1 para 7,5)!

Pipoca 3
Quer ter uma idéia da virilidade do ataque do time? Olhe a média de lances livres. A deste Phoenix (18) é a mais baixa da história da NBA.

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Escrito por Melk às 10h10
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